TERAPIA DO ABRAÇO:
AMOR QUE CURA.

Laís Bertoche

Ah! A família... A família nasce espontane-amente para que o ser humano, frágil e dependente, possa aninhar-se e ser nutrido, confiar e dar seus primeiros passos, aprender as primeiras palavras e viver seus primeiros amores.

Um pouco de história

O mais antigo agrupamento humano, a palavra família* era utilizada para indicar todos os indivíduos que pertenciam ao grupo doméstico e incluía, além das pessoas com o ancestral comum, os servos da casa.

Em tempos remotos, pessoas unidas por ancestrais comuns possibilitaram o surgi-mento de poderosos clãs, que estendiam seus domínios por vastas regiões.

À medida em que as sociedades se torna-vam mais complexas e numerosas, os laços sanguíneos foram se dissolvendo até que no antigo império romano cunhou-se a expressão “família natural”, indicando a-quela formada por um casal e seus filhos, estabelecida juridicamente pelo casal no dia de seu matrimônio.

Entranhas familiares

Quando pensamos em família ideal, imagi-namos vínculos construídos a partir de laços de amor e intimidade. Mas nem sempre foi assim. Até a idade média, o casamento era um contrato firmado pelos pais para a construção de alianças e benefício dos negócios familiares. Escolhas e afeto eram irrelevantes e a sexualidade estava à serviço da reprodução e não do prazer.
Por outro lado, as questões econômicas eram irrelevantes para os camponeses pobres da Idade Média, possibilitando es-colhas e casamentos por amor.

Segundo o historiador George M. Trevelyan, o amor mútuo como base para o casamento – embora ainda não a única – surge na literatura a partir do século XV e começa a ascender na escala social até a era moderna, quando se estabelece como regra básica.

O conceito de família hoje

O amor-sexual e o amor-paixão encontram terreno fértil nas ideias de liberdade indi-vidual iniciada pela revolução burguesa, com expectativas idealizadas de felicidade no casamento, onde o amor e a sexualidade são fundamentais.

Movimentos sociais, culturais, econômicos e outros como o de gênero, levaram as pessoas a reverem suas ideias e buscarem formas de relacionamento que pudessem responder às novas exigências de uma sociedade sempre em mutação. Essa mu-dança exigiu uma reconsideração do con-ceito de família.
Numa iniciativa pioneira, o Dicionário Hou-aiss traz uma definição inédita nascida das sugestões de internautas: família é o “nú-cleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si relação solidária”.

Mas independente da família ser constituída por casais jovens ou maduros, mães e pais solteiros, uniões hetero ou homoafetiva e tantas outras possibilidades, as crianças continuam nascendo pequeninas e totalmente dependentes dos cuidados de outras pessoas.






Aprendendo a amar

Ao mergulhar num ventre, o pequeno ser recebe o influxo da vida que traz em si a vontade de continuar existindo, desper-tando e desenvolvendo seus instintos pes-soais de sobrevivência. Por isso chora, bus-cando a presença e os cuidados de alguém que o alimente, cuide e proteja. Nesse ponto, os pais ou substitutos preci-sam ter paciência e amorosidade para que a criança possa ser capaz de desenvolver o autocontrole e compreender que os outros também têm necessidades e aspirações legitimas que, como as suas, precisam ser respeitadas. Do contrário, a impaciência e a irritabilidade despertarão sua raiva e frustração, diminuindo sua autoconfiança e autoestima.

Amor e autoconfiança


Sentindo-se acolhida e protegida mesmo nos seus momentos mais difíceis, como numa crise de birra, a criança poderá de-senvolver as qualidades da empatia e da consideração pelo outro e desabrochar para o amor. Mas nem sempre é fácil manter a serenidade nessas circunstâncias.

Num seminário com Bert Hellinger, aprendi a eficiente Terapia do Abraço, técnica já utilizada intuitivamente por muitos pais e educadores, que permite lidar com as e-moções de raiva, frustração e tristeza.

Consiste em tomar a criança nos braços e mantê-la no abraço de forma firme, calma e, principalmente, amorosa, independente da crise que ela esteja expressando.

Acom-panha palavras tranquilizadoras, como a afirmação de que o abraço visa protegê-la, para que ela não se machuque nem fira outras pessoas, além de reafirmar o amor que se sente por ela.

Se mantém a criança no abraço, sem deixar que ela “escape”, custe o que custar. O abraço dará a criança a sensação de limite e proteção necessária, a partir de um adulto que ela confia. Embora no início ela possa gritar muito e tentar fugir, ao final ela relaxa e dorme, acordando calma, sentindo-se protegida e amada pelo adulto.

Embora a implantação da técnica possa ser um pouco difícil, os resultados emocionais para todos serão muito superiores a apenas deixá-la espernear no chão, fingindo ignorá-la, ou pior, dizendo coisas que afetarão ainda mais sua autoconfiança. Lembre-se de que a criança está exercendo apenas sua capacidade de autopreservação e desejo de obter felicidade.

A Terapia do Abraço funciona também com adultos, quando se precisa de um amparo em um momento de raiva, tristeza, frustra-ção ou angustia. É um sinal de que com-preendemos a dor e o sofrimento do outro e confiamos que, no devido tempo, ele será capaz de superar a dificuldade.

* O vocábulo família, vem do Latim, e significa “grupo doméstico”.


Texto publicado no Jornal Prana em fevereiro de 2019.

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