VIDAS PASSADAS:
MEMÓRIA OU IMAGINAÇÃO?

Laís Bertoche

Apesar do avanço das pesquisas quanto a origem e evolução do ser humano, ainda há muita dúvida e ceticismo em relação à pluralidade da existência da Alma e resis-tência às terapias que propõe a cura dos bloqueios energéticos produzidos por me-mórias limitadoras. Dentre essas aborda-gens, cito a Terapia Transgeracional, que visa a identificação, ressignificação e disso-lução de engramas arquivados na memória coletiva ou individual, para que a pessoa recupere sua conexão com a alma imortal.

O que é engrama?

Engrama é uma marca ou gravação no campo da memória, produzida por aconte-cimentos vivenciados pelo indivíduo, tanto de modo passivo como ativo, originário de hábitos, convicções, condicionamentos, heranças familiares, traumas, cenas assisti-das e até de conhecimentos adquiridos, mais comuns quando a atenção não está muito presente, perturbando a percepção clara e objetiva dos fatos. Os engramas se revelam como recordações aparentemente espontâneas, tanto no sono quanto na vigília. É comum a identificação de um fator desencadeante semelhante ao evento primário que induz o sujeito a um comportamento automático, reflexo ou involuntário, semelhante ao observado na cena original.

Na minha experiência, pessoas que viveram situações potencialmente traumáticas nesta vida, somente sofrerão de estresse pós-traumático se o evento for uma reedição de algum engrama de vida passada ou herança da família de origem. Do contrário, o mais comum é a superação e o aumento da resiliência e da coragem.

Processo terapêutico

Embora para a maioria a vida não seja mui-to fácil, viver bem deveria ser natural, assim como ter saúde, abundância e prosperidade. Mas os padrões negativos de sobrevivência arquivados em nossa memória – os engramas – criam pensamentos, palavras e ações limitantes, causadoras de doença, solidão, pobreza, infelicidade e desespero.

Por isso é necessário acessar e identificar a origem dos eventos traumáticos arquivados na memória. Mas, perguntam, como sei se essas memórias são reais ou frutos da imaginação?

O neurologista Oliver Sacks* (1933-2015), escreve que não há como distinguir as memórias verdadeiras das falsas – e eu concordo com ele. Ele argumenta que “não existe mecanismo na mente nem no cérebro que assegure a verdade, ou ao menos, o caráter verídico das lembranças”. Isso porque enquanto vivemos uma situação traumática – um acidente por exemplo – a percepção dos órgãos dos sentidos se res-tringe, distorcendo a capacidade de atenção e, portanto, a percepção dos fatos fica prejudicada.




Independente da realidade objetiva, os registros do acidente serão arquivados de modo subjetivo – a verdade subjetiva – produzindo engramas, pensamentos, emo-ções e reações. Independente dos fatos reais, o terapeuta Transgeracional está interessado nas memórias traumáticas limitantes, sejam elas “verdades históricas” ou “verdades narrativas”, como chama Donald Spense.

Quero lembrar ainda que a Terapia Trans-geracional trata todas as histórias como verdades, revisitando o evento traumático inclusive para identificar a responsabilidade do cliente com o acontecido. Depois, é necessário conduzir os personagens para o momento da morte – afinal aquele evento já aconteceu há muito tempo – e encami-nhá-los a outro nível de consciência, além do físico.

Personalidades múltipla

Não considero pertinente a teoria de que possuímos várias identidades. Cada perso-nagem é único, com suas virtudes e limita-ções. Desenvolvemos qualidades durante nossa estadia na Terra, mas contamos uma única história por vez. A Terapia Transgera-cional considera que as chamadas síndro-mes de identidade encontradas nos trans-tornos dissociativos de identidade, como no caso das múltiplas personalidades, se justificam com a identificação por parte do cliente, com personagens de vidas passadas ou pela presença de processo obsessivo (personagem intrusa).

Lembro ainda que, ao recordar um fato, é muito comum preencher as lacunas da memória (lembra que falei do estreitamento da percepção?) com cenários e até iden-tificação com pessoas atuais. Devemos nos precaver diante desses relatos, pois com muita frequência são falsos. Por isso, os terapeutas devem evitar a identificação de familiares do passado no presente, sob pena de arruinar vidas e famílias com acusações. Juntos construímos o mundo

Sendo ou não uma falsa memória, o registro de uma sensação experimentada por uma experiencia vivida ou apenas imaginada é o mesmo. Isso pode ser parcialmente explicado pelo fato de que ambas as me-mórias usam as mesmas vias sensoriais e são arquivadas na mesma região: o campo de memória coletivo.

Dr. Sacks reafirma que apesar de não ter-mos acesso direto à verdade histórica, o que sentimos ou afirmamos ser verdade depende tanto da nossa imaginação como dos nossos sentidos. Além disso, os acon-tecimentos do mundo são percebidos, ex-perimentados e pensados de um modo subjetivo por cada pessoa, e embora de modo diferente, contribuímos e construí-mos juntos a verdade do mundo em que vivemos, independente de termos apenas uma ou várias vidas.

Por isso, quando alguém identifica e libera memórias limitantes, independentemente de serem verdades históricas ou verdades narrativas, todos nós, que partilhamos do mesmo campo de memória coletiva, somos beneficiados com maior consciência, dis-cernimento, confiança e felicidade.



* Oliver Sacks, “O Rio da Consciência”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2017. Tradução de Laura Teixeira Motta.



Texto publicado no Jornal Prana em janeiro de 2019.

© 2019 LAÍS BERTOCHE. Todos os direitos reservados